Sara Bentes: Atuação Profissional de Pessoas com Deficiência Visual nas Artes

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Atuação profissional de pessoas com deficiência visual nas artes

Sara Bentes

Sara Bentes é atriz, cantora e compositora premiada internacionalmente, com participações em festivais de artes nos Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Tailândia e Argentina; atuante ainda na literatura, na dança e no circo, é palestrante e consultora de inclusão de pessoas com deficiência.

Tenho apenas uma maneira diferente de ver o mundo

Nascida em 1982, na cidade de Volta Redonda - RJ, fui a única na família a nascer com glaucoma e a ter deficiência visual.

Aos 12 dias já passei por uma cirurgia nos olhos, a primeira de uma série de 16 e meia.

Aos três anos comecei a enxergar com os dois olhos e fiquei com uma baixa visão (5%) até mais ou menos 15 anos.

Nesta época, não conseguimos mais controlar o olho direito e a visão dele acabou.

A cegueira e muita dor nos fizeram substituir o olho direito por uma prótese quando eu tinha 17 anos.

Fui alfabetizada em tinta (letra ampliada), estudei em colégios regulares, sempre enfrentando o já conhecido despreparo dos professores e gestores, passando por discriminações, constrangimentos e por uma expulsão em um dos colégios, que simplesmente não queria mais uma aluna diferente ali, mesmo que essa aluna fosse uma das melhores em notas e comportamento.

No início de 2010, prestes a completar 28 anos, após um procedimento médico considerado simples (a meia cirurgia citada no início), no olho esquerdo, tive dores agudas e, de repente, a visão se apagou por completo, por um descolamento de coroide com hemorragia e outras complicações.

Meu encontro com as artes

Desenho - ".

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Era um caso de amor, um contato muito íntimo, particular; Para enxergar o que traçava, eu precisava ficar de rosto colado no papel, e o beijava, beijava.

E nessa dança, tão cúmplice que sempre fui, eu saía igualmente desenhada, Eu pintava o papel e ele me pintava.

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"

Extraído do livro "Fotografias poéticas de um olhar viajante".

Poema "Pedaços de mim", de Sara Bentes

Logo que comecei a enxergar e fui apresentada às cores, demonstrei grande adoração pelo desenho.

Meus traços chamavam a atenção dos adultos, não só pelos 5% de visão, mas pela noção de perspectiva e iluminação e pela riqueza em detalhes.

A prática do desenho foi incentivada por minha família, até como uma forma de estimular cada vez mais minha pouca visão.

Na escola, o desenho foi fundamental na minha socialização, já que não há nada mais comum entre as crianças videntes do que o ato de desenhar.

Nos trabalhos escolares em grupo, eu era sempre requisitada para desenhar a capa ou qualquer outra parte que necessitasse; quando algum novo desenho que eu inventasse agradava, vários colegas vinham me pedir que fizesse outro igual pra cada um deles; quando dava tempo, ao fim da aula eu fazia um desenho e presenteava o colega que havia me ajudado naquele dia se sentando colado comigo pra me ditar o que havia no quadro e ler o que mais fosse necessário.

Mais ou menos aos 10 anos, entrei num curso de pintura a óleo, conforme todos em volta diziam que seria muito bom pra mim.

Mas a professora não sabia lidar com minha forma diferente de visão e não nos entendemos.

Nunca mais entrei em cursos de pintura nem desenho.

Mais tarde, na adolescência, fui aprimorando meus traços por minha conta e descobrindo novas técnicas, e aos 18 anos comecei a participar de uma série de exposições com meus quadros pelo estado do Rio de Janeiro.

Hoje, sem a visão, embora continue expondo os quadros restantes daquela época por outras partes do país, passei a desenvolver o desenho tátil, utilizando a prancheta de borracha que ajuda a criar um baixo relevo no papel bastante perceptível ao toque, mas apenas para fins recreativos e de interação com crianças.

Música - A música vai onde a palavra não vai.

(Dito popular)

Nasci numa família bastante envolvida com as artes, e principalmente a música.

Embora não houvesse na família nenhum profissional na música, quase todos da enorme família de meu pai tocavam, cantavam e compunham.

Então cresci num ambiente bastante favorável ao desenvolvimento da minha musicalidade, além de, pela deficiência visual, jogar mais atenção na minha audição, o que também facilitou a percepção musical.

Meus pais, grandes incentivadores, desde cedo me puseram em aulinhas de musicalização, piano clássico, teoria musical e outros.

Mas o que eu queria mesmo era cantar.

Meu pai, que desde jovem participava de festivais de música pelos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sempre negava meus pedidos de acompanhá-lo cantando nesses eventos, talvez por um misto de excesso de zelo com insegurança ao não me ver preparada musicalmente.

Então foi só aos 13 anos, quando por iniciativa própria fiz teste e ingressei no coral recém-formado na escola, que cantei pela primeira vez em público e pude mostrar meu potencial.

Logo no início dos ensaios a maestrina acreditou em mim e me dava solos para cantar.

Meu pai, ao me ver cantar no coro, também acreditou em meu potencial e me chamou para cantar suas músicas nos festivais.

Assim, da escola para festivais e festas de bairro, dali para eventos em outras cidades, estados e países, comecei minha trajetória musical.

Na escola, algo mudou: por ser a única com deficiência visual em todos os colégios onde estudei, era conhecida como "A Sara, aquela que não enxerga direito" (fora outros adjetivos menos educados referentes à deficiência.

) Quando comecei a cantar e me destacar no coral, fiquei famosa na escola como "a Sara, aquela que canta!

"

Teatro

"O teatro é brincar de ser como seria se fosse.

" Oswaldo Montenegro

Quando comecei a cantar e a me profissionalizar na música, deparei-me com uma situação que nunca ninguém havia me contado: pessoas que nascem com deficiência visual não têm, por natureza, expressividade corporal nem facial, simplesmente por não assimilarem visualmente e imitarem desde bebês todo um repertório de gestos, posturas, movimentos, caretas e sinais de uma cultura visual, como acontece com qualquer criança que enxerga.

No palco, eu era mais dura e parada que o pedestal do microfone, e as pessoas em volta, como amigos, outros cantores e até familiares, cobravam de mim presença de palco, aproveitamento do espaço, expressividade corporal e facial, sem perceberem que isso não era algo concreto para mim.

Bom, já que eu começava a "competir" com cantores sem deficiência, eu devia ser, no mínimo, tão boa quanto eles.

E já que eu era uma intérprete, e não uma pianista que canta, por exemplo, que só precisa ficar sentada cantando enquanto toca, eu devia sim me aprimorar e interpretar com todo o meu corpo, com toda a minha presença.

E foi assim que fui parar no teatro e na dança, buscando meios de lidar melhor com minha expressividade, com meus movimentos e com o espaço.

Na verdade, o teatro já me encantava bem antes de eu começar a cantar, e aos 11 anos eu fiz minha primeira tentativa num curso livre de teatro, tentativa frustrada (explicação mais a diante).

Mas a necessidade que posteriormente a carreira de cantora me trouxe, fez-me insistir.

Então aos 13 anos ingressei num outro curso livre para o público em geral, assim como o primeiro.

Vale destacar que no interior, e há 20 anos, nem se sonhava com cursos específicos para pessoas com deficiência, ou sequer se falava em professores preparados, ou no mínimo interessados, para atender a qualquer necessidade específica.

E, de curso em curso de teatro, fui me aprimorando como podia, mas nunca me sentindo efetivamente incluída nem atendida nas minhas necessidades.

Foi só aos 23 anos que me senti verdadeiramente incluída num curso de teatro, um curso para o qual fui convidada e ganhei bolsa para cursar.

A mesma sensibilidade que fez o professor ver em mim potencial, fez com que ele desenvolvesse, naturalmente, alternativas e soluções para me fazer realizar tudo o que os outros alunos realizavam, e ele não me poupava de nada.

A partir dali foi uma seqüência de cursos e atuações em peças e musicais até eu me profissionalizar, aos 28 anos, depois de passar pela oficina dos Menestréis, em São Paulo, onde me senti pronta pra viver também do teatro.

Dança

"Dançar, pra mim, é como ser livre, é como voar.

" Sara Bentes

Como já disse, pelo mesmo motivo que me levou ao teatro, fui parar na dança.

E a história se repetiu: passei por várias tentativas em cursos regulares no interior, normalmente aulas de jazz.

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fui começar a me encontrar na dança aos 20 anos, num curso de dança do ventre, onde a professora desenvolveu um método, muito simples, de me fazer assimilar a dança.

4 anos mais tarde, dei mais um grande avanço na consciência corporal e na expressividade, ao conhecer e mergulhar na filosofia Angel Vianna, no Rio de Janeiro, uma escola de dança contemporânea, pensada para receber qualquer corpo, tenha ele a diferença e a peculiaridade que tiver.

A partir daí, senti meu corpo mais preparado não só para o palco, mas para assimilar qualquer outro tipo de dança, e, novamente no interior, arrisquei-me por alguns estilos de dança de salão, hip-hop e, já aos 30 anos, ballet clássico.

Na escola onde estudei esses últimos estilos, sinto-me completamente incluída na dança.

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Não sou profissional da dança, mas utilizo a dança nas minhas outras atividades: música, teatro e circo.

Circo - "é estar cara a cara com o medo e poder dizer na cara dele quem é que manda aqui.

" Extraído do texto "Num picadeiro sem luz" do blog Boca no mundo, de Sara Bentes

Despretensiosamente, e na verdade como um capricho, uma expressão de raiva transformada em movimentos, eu dançava numa mostra de artes no Nordeste.

Eu fora convidada apenas para cantar, mas inventei de dançar também, uma dança do ventre diferente, onde a Izadora (minha bengala) era minha parceira de dança, representando a bengala da tradicional dança árabe, bengala que simboliza a força feminina, a mulher guerreira.

Por esses sincronismos do universo, estava na mesma mostra uma antiga conhecida, a dançarina Viviane Macedo, que estava procurando uma pessoa cega pra completar um grupo num novo projeto de circo.

Bom, foi assim então que, em 2013, fui parar no circo Crescer e Viver, no Rio de Janeiro, que montava o espetáculo "Belonging", em parceria com a cia.

inglesa de teatro e circo Graeae.

Sempre me encantei pelos equipamentos aéreos do circo, e, tendo me afinado mais com a lira, concentrei meus esforços circenses somente nela.

O projeto era voltado pra pessoas com deficiência, o que não quer dizer que os professores tivessem preparo pra lidar com nossas diferenças.

Mas, por estarem no projeto, ao menos estavam abertos a aprender, e aprenderam na prática, o que também não é fácil para os alunos.

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Com a parceria Brasil/Inglaterra, apresentamos nosso espetáculo em Londres, no Rio de Janeiro e em São Paulo, em 2014.

Aprendendo juntos as barreiras e as vitórias no processo de aprendizagem das artes Aqui me dedico a detalhar as experiências que tive, especialmente no aprendizado das artes, e considerações sobre o Despreparo de professores, diretores, maestros e outros líderes, bem como as experiências de sucesso e o que diferencia as primeiras das segundas.

Quando falamos das cidades do interior, falamos de locais onde as discussões e práticas inclusivas demoram mais a chegar.

Mesmo hoje, na era da informação, com a internet encurtando distâncias, ainda é assim.

Em Volta Redonda, 30 anos atrás, o máximo que se tinha de ensino e práticas específicas para pessoas com deficiência visual era uma escola municipal de apoio, que existe até hoje e que freqüentei por um ou dois anos na infância.

Eu freqüentava a escola regular à tarde e esta escola especial de manhã, para ter auxílio nos deveres de casa, reforço nas explicações, principalmente de matemática e geometria, e conviver com outras pessoas com deficiência.

Então, para fazer qualquer curso artístico em minha cidade, era preciso me jogar em cursos para o público em geral e tentar sensibilizar os professores para as minhas adaptações.

No estudo da música não foi tão difícil, pois na prática o que eu precisava mesmo era do meu próprio ouvido.

E na teoria, os professores nunca se negaram a reescrever para mim os exercícios de forma ampliada e com caneta grossa.

Quanto à pauta musical, preparamos em casa um caderno com pautas maiores, mais espaçadas.

Na hora de tocar lendo a partitura, eu não tinha como colar os olhos no papel pra ler a partitura ampliada, mãos direita e esquerda, e tocar o piano, por uma questão de postura e de abrangência de visão (meu foco era tubular), então fui desenvolvendo minha memória e facilmente memorizava previamente as partituras e depois tocava livre delas.

Para solfejar já não havia problemas para ler e cantar ao mesmo tempo.

Tive um maestro, que me regeu como corista e como cantora solo, desde meus 16 anos, que mudou minha percepção e me deu grande incentivo quando me contou de um determinado maestro, famoso, que regia uma sinfonia inteira de olhos fechados, o que me confirmava que, na prática, eu só precisava da minha memória e do meu ouvido.

Este mesmo maestro, Marcelo Jardim, nunca mediu esforços para fazer adaptações que me integrassem melhor ao trabalho e ao grupo, onde não havia mais ninguém com deficiência.

Na única tentativa de curso de pintura, o preparo da professora era limitado apenas a ensinar a fazer cópias, e meu desenho sempre foi criação própria.

Minha visão era muito fraca para copiar figuras, então, para o curso limitado dela, eu não tinha talento algum.

Ela acabava perdendo a paciência de me esperar tentar copiar de forma muito mais lenta que os outros alunos, ou se incomodava em ver meu tremendo esforço, e fazia por mim.

Os poucos quadros que gerei ali (acho que somente 2) nunca expus e me incomodava olhar pra eles, porque eles não eram traços meus e nem ideias minhas.

Além disso, a experiência com tinta óleo talvez não fosse a mais adequada para meu caso, já que, para enxergar o que traçava ou pintava, eu "colava" o rosto no papel ou na tela.

Dá pra imaginar o estado em que eu saía dessa aula de pintura.

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sem falar na inconveniência de respirar muito de perto o odor da tinta.

No estudo do teatro e da dança, os desafios foram ainda maiores, por se tratar de modalidades artísticas tradicionalmente visuais e que lidam com espaço, movimento e expressividade.

Em geral, os professores pelos quais passei, sem nenhuma experiência prévia com alunos com deficiência visual, excluíam-me pelo excesso de zelo, temendo que eu me machucasse nos exercícios, e subestimando meu potencial, um potencial que eu não conseguia desenvolver justamente pelos professores não terem ferramentas alternativas para me ensinar atendendo às minhas necessidades específicas.

Hoje posso claramente identificar os fatores que favoreceram este cenário: 1- A falta de discussão geral na sociedade sobre o tema deficiência.

2- A falta de discussão e prática sobre o tema deficiência nas formações de professores da área artística (mesmo porque a maioria desses professores têm formação prática e não acadêmica).

3- A falta de discussão sobre o tema deficiência entre meus familiares, que, também por falta de informação e experiência, não me preparavam pra que eu me colocasse e apresentasse soluções nestas situações.

No estudo da dança, como já citado acima, foi só aos 20 anos que comecei a me sentir incluída.

A solução encontrada pela professora de dança do ventre foi tão simples quanto polêmica para muitos.

Ela simplesmente passou a colocar minhas mãos no corpo dela pra que assim eu percebesse seus mínimos movimentos.

E o mais interessante foi percebermos que a técnica ajudou também às outras alunas, sem deficiência, que passaram a entender melhor alguns movimentos mais sutis depois de tocarem a professora.

Entendo que tal método deve ser discutido com cuidado principalmente quando falarmos do ensino da dança para crianças.

Mas foi só assim que me senti familiarizada com a dança.

Um ano depois, fiz aulas particulares de samba no pé, quando soube que representaria o Brasil num concurso de música nos Estados Unidos.

Na aula particular eu e o professor tínhamos mais tempo para entender formas melhores de me ensinar e não tivemos problemas.

Um pouco mais tarde, com a vivência intensa da consciência corporal e da verbalização do movimento na escola Angel Vianna, compreendi que nem sempre é necessário o toque no corpo do outro pra assimilar a dança, mas o toque é sim o jeito mais rápido.

E, depois dessas experiências, eu mesma podia apresentar ferramentas de ensino aos meus próximos professores de dança, e por isso é que me joguei sem receio em outros cursos depois disso.

O relato a seguir, extraído do meu blog "Boca no Mundo", é, pra mim, o exemplo mais positivo do que todo contato entre alunos com deficiência e professores sem experiência no assunto deveria ser: " Quando decidi estudar ballet clássico, desejando que esta modalidade me desse mais embasamento técnico para dançar qualquer outra dança, logo vieram as perguntas: Por onde começar? Quantos "nãos" vou ouvir até encontrar alguém com experiência em ensinar ballet para uma pessoa que não enxerga? Na minha cidade nunca ouvi falar em algum trabalho de ballet clássico especializado para este público.

Bom, por alguma escola de dança eu deveria começar, e comecei, pelo melhor lugar por onde eu poderia ter começado.

Já no primeiro telefonema, fui muito bem recebida pela professora Lissiana Schlick e conheci sua disposição e sensibilidade.

Após pegar todas as informações quanto a horários, turmas e valores, eu a surpreendi perguntando se ela já havia dado aula pra alguém com deficiência visual.

Ela ficou muda por alguns segundos e disse que não.

Expliquei a ela minha situação.

Ela só precisou de mais 3 segundos de silêncio para respirar e então me dizer que achava que seria um desafio, pra mim e pra ela, mas que se eu quisesse encarar, ela também queria, e completou: "Você me ensina a te ensinar".

E desde então, eu e Lissiana, que, ao lado do maridão Rafael Mendes, é também dona da escola de dança República do Movimento, em Volta Redonda, fomos aprendendo juntas, e na prática, outros meios de me fazer "enxergar" os movimentos, e ela não mede esforços para me fazer compreender alguma postura ou passo mais complexo e para me integrar na dança e no grupo.

Além disso ela não deixa barato, me cobra igual, é exigente comigo assim como é com todos os alunos.

Do ballet fui parar também nas aulas de tango e samba, ministradas pelo Rafa, que, observando a esposa e recebendo orientações dela, também logo pegou o jeito de me ensinar e hoje todos ali lidam comigo com toda a naturalidade.

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" No estudo do teatro, foi também através de um professor com maior sensibilidade e criatividade pra soluções alternativas que comecei a me sentir incluída num curso, somente aos 23 anos, na cidade de Barra Mansa, vizinha de Volta Redonda.

Algo que ajudou foi que este professor, Marcelo Soares, era do meu círculo de conhecimento e me via cantando em diversos eventos.

Interessado em ter meu trabalho como cantora em seus musicais, ele não só me convidava para atuar nos espetáculos, mas também me deu uma bolsa em seu curso de teatro, sem, em qualquer momento, manifestar dúvidas quanto à maneira de me ensinar ou de me integrar no grupo e nos exercícios.

Ele simplesmente me integrava, fazendo adaptações, sensibilizando os outros alunos para a minha condição.

Por motivos de trabalho e de mudança de cidade, não pude ficar ali muito tempo.

E foi só 5 anos mais tarde, mesmo que neste intervalo eu tenha trabalhado como atriz, que voltei a estudar teatro, na Oficina dos Menestréis, em São Paulo.

A Oficina dos Menestréis, escola de teatro para o público em geral, mantém algumas turmas específicas para ensinar e montar espetáculos com pessoas com deficiência, e uma dessas turmas inclui basicamente cadeirantes, pessoas com deficiência visual, de vez em quando surdos, e pessoas sem deficiência.

Foi a primeira vez em que fiz um curso de teatro já com adaptações pensadas para a minha deficiência.

É um curso que recomendo pra todos, e o grande avanço que pude extrair dali sei que não se deve somente ao fato de ser um curso preparado para pessoas com deficiência, mas se deve também ao fato do nível de exigência de o curso ser muito alto, e ninguém ali é poupado ou protegido por ter uma deficiência.

Já no estudo das atividades circenses, a experiência foi diferente de todas as anteriores, já que era um projeto pioneiro no Brasil para preparar artistas circenses com diferentes deficiências e, justamente por ser pioneiro, os alunos foram "cobaias" desses professores sem preparo para as deficiências, mas com a disposição.

Só que atividades circenses oferecem mais riscos de acidentes, e o desenvolvimento deste método específico para pessoas com deficiência deveria ser feito com mais tempo e cuidado.

Mesmo que o projeto Brasileiro estivesse recebendo orientações de um projeto similar já realizado na Inglaterra, a maioria dos alunos teve diferentes tipos de lesões e pequenos acidentes sem grandes conseqüências, mas que poderiam ser evitados se não fosse o despreparo e a falta de conhecimento de causa por parte dos professores.

Além disso, nós, alunos, passamos por vários professores diferentes em pouco tempo, e ter de explicar e ensinar a cada um deles, de novo e de novo, como eles deviam nos ensinar, tornou-se desgastante em determinado momento.

Mas compreendemos que aceitamos fazer parte de um projeto pioneiro e que no pioneirismo sofre-se um pouco mais para abrir caminho à fluidez dos próximos.

Terapia ou profissão? Quando se fala em arte e pessoa com deficiência, é preciso se ter muito bem definido qual o objetivo dessa pessoa na arte, se é terapia ou profissão.

Existe uma tendência por parte dos festivais de arte inclusiva, das famílias e da sociedade de misturar as coisas.

Por questões históricas e culturais muito enraizadas no inconsciente da sociedade, ainda existe um encantamento exagerado quando vêem uma criança com deficiência, ou mesmo um adulto com deficiência fazendo algo belo nas artes, porque lá no fundo talvez não se esperasse muita coisa dessa pessoa.

Porém, se familiares, amigos e professores querem realmente incentivar alguém com deficiência a se profissionalizar na arte, não ache lindo qualquer coisa que sair dessa pessoa, tenha em mente, e a ajude também a se lembrar, que, se ela quer entrar num mercado, ela vai competir com artistas com ou sem deficiência, e que podem ser muito mais competentes que ela.

E que o que deve sobressair é a competência, e não a deficiência.

Agora, se o objetivo é arte terapêutica, o importante mesmo é se sentir bem, e neste aspecto a arte tem sim grande papel, inclusive durante a reabilitação, nos casos em que se adquire a deficiência.

E, mesmo quando o objetivo na arte é profissional, ela não deixa de ser terapêutica, porque a arte, com seu infinito poder transformador, vê possibilidades onde muitas vezes vemos barreiras, na arte é possível ressignificar coisas e sentimentos, na arte, todos os objetos e diferentes necessidades podem virar elementos extremamente cênicos e abrem um leque infinito de novas interações e possibilidades.

No teatro, uma bengala de cego, por exemplo, vira uma varinha mágica ou até mesmo um microfone; uma cadeira de rodas se transforma num carro de corrida ou numa cadeira de dentista.

Trabalhar na arte pra mim é sempre terapêutico, e o exemplo mais forte disso foi quando ingressei no curso de teatro musical da Oficina dos Menestréis, apenas três meses depois de perder a visão.

No primeiro dia pensei em nunca mais voltar.

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um palco enorme, cadeiras de rodas correndo pra lá e pra cá, muita ação e movimento e eu não tinha me adaptado nem ao espaço da minha própria casa ainda!

Talvez fosse cedo demais, a idéia me pareceu uma loucura.

Insisti, e os desafios que foram caindo na minha mão, o convívio com outras pessoas com deficiência super bem resolvidas, a magia da arte, tudo aquilo foi me motivando e acelerando meu processo de reabilitação.

Seis meses depois do início do curso, eu já atuava no meu primeiro musical com aquela turma, o musical "Filhos do Brasil", de Oswaldo Montenegro, onde eu cantava, dançava, atuava e até andava sozinha pelo palco em uma das cenas.

Quanto aos festivais e mostras de arte inclusiva, em geral é preciso que eles revejam seus formatos e atualizem seus conceitos.

E falo não só dos festivais Brasileiros, mas de tantos por aí que conheci em outros países.

Muitos desses festivais costumam misturar artistas profissionais com deficiência com pessoas com deficiência fazendo arte-terapia, e isso, além de confundir e reforçar estigmas no público, desvaloriza os artistas profissionais, que em geral dedicaram anos ao estudo da arte e sobrevivem dela.

É preciso separar bem as coisas e mostrar ao público que sim, essas duas realidades existem, mas que são realidades diferentes.

E cabe principalmente ao artista profissional se posicionar em relação a isso.

Arte inclusiva, Pra começar, a arte por si só já é inclusiva, no sentido de que é flexível nas suas infinitas possibilidades e não tem limites, faz parte do ser humano e acolhe a qualquer diferença.

Mas costuma-se chamar arte inclusiva os projetos artísticos que envolvem pessoas com deficiência.

Na minha opinião, não se deveria diferenciar e todos os projetos artísticos deveriam ser para todos, mas no nosso processo evolutivo é preciso vencer uma etapa de cada vez, e ainda precisamos desta etapa em que se chama a atenção do mundo para os artistas com deficiência, para gritar que eles existem, que podem ser tão capacitados e competentes quanto outros e que precisam de espaço no mercado e na mídia.

Por outro lado, existe também o risco desses projetos e festivais de arte inclusiva segregarem ainda mais estes artistas.

No fim das contas, depende de cada artista com deficiência usar o bom senso e buscar seu espaço no mercado, priorizando iniciativas (sejam denominadas inclusivas ou não) que o valorizem como profissional e pensando em se aprimorar cada vez mais.

Com meus 20 anos comecei a ser chamada pra eventos de arte inclusiva, envolvendo várias modalidades artísticas e vários tipos de deficiência, e participei de inúmeras mostras nacionais (hoje mais raras), um festival competitivo nos Estados Unidos, onde fui a vencedora na categoria internacional, entre cantores com deficiência de 86 países, com prêmio em dinheiro e viagem com tudo pago, uma mostra na Argentina, em que participei por 3 anos, não consecutivos, uma mostra na Itália com viagem custeada pelo evento, e uma mostra específica para músicos com deficiência visual, na Tailândia, com viagem custeada pelo evento (passagens e estadia para apenas uma pessoa, e fui sozinha).

De todos estes eventos, nenhum teve cachê por participação, mas as mostras em outros países que custeiam a viagem, pra mim, equivaleram a um cachê, pois foi uma troca justa.

O que ganho com as experiências de viagens internacionais, dificilmente eu ganharia de outra forma.

Além disso, muito do que aprendi sobre diversidade, sobre arte, sobre outras deficiências e sobre humanidade devo a essas vivências em festivais de arte inclusiva nacionais e internacionais.

Hoje vejo que toda experiência que nos faz crescer, pessoal e profissionalmente, é válida de acordo com as nossas prioridades de cada momento.

Vejo também que de algumas dessas mostras, nacionais e internacionais, eu não participaria mais, porque foram importantes e representaram um grande incentivo à minha arte naquele momento, mas agora minhas prioridades profissionais são outras.

Já quanto aos grupos que integrei provenientes de projetos artísticos chamados de inclusivos, não foram tantos.

Integrei a cia.

Mix Menestréis, oriunda do curso da Oficina dos Menestréis acima citado, o espetáculo circense "Belonging", resultado da capacitação de circo para pessoas com deficiência da parceria circo carioca Crescer e Viver e cia.

Inglesa de teatro e circo Graeae, também já citada acima, e integro o projeto Teatro Cego, em São Paulo, um projeto pioneiro no Brasil, que realiza peças e musicais totalmente no escuro, e os atores são pessoas com e sem deficiência visual.

Ambos os projetos misturam pessoas com e sem deficiência, e isto é um ponto forte da inclusão para mim, além de buscarem pensar na acessibilidade tanto para elenco quanto para público e de remunerarem devidamente todos os profissionais.

Outro ponto em comum dos 3 projetos acima, e fundamental na minha opinião, é que eles se configuram como projetos inclusivos, mas não atuam somente em circuito de eventos inclusivos.

Os grupos são chamados para congressos que discutem inclusão e acessibilidade, para celebração do dia internacional da pessoa com deficiência, mas também buscam e ganham espaço no circuito comum de teatro, música e circo, atingindo um público diverso, que não foi ali para ver, discutir e usufruir especificamente de inclusão e acessibilidade.

Fora isso, já integrei bandas e outros grupos onde, por coincidência ou por afinidade e amizade, havia outras pessoas com deficiência, mas não nos colocávamos no mercado como um projeto inclusivo, apesar de, naturalmente, sermos um projeto inclusivo.

Vejo que no futuro ideal assim será, praticar a inclusão será algo natural, sem sequer se precisar anunciar a inclusão.

A grande mídia e o artista com deficiência Muitos me perguntam sobre a relação da grande mídia conosco, artistas Brasileiros com deficiência.

Este é um assunto vasto e delicado.

Mas, em resumo, observo um avanço, lento, na maneira da mídia lidar com a imagem da pessoa com deficiência em geral.

Normalmente a mídia acompanha as mudanças na cultura de um povo.

Se lentamente estamos avançando na inclusão, a mídia, como reflexo, também está.

A antiga e mais rentável abordagem do tema deficiência, e que ainda vemos por aí, é a abordagem do "circo dos horrores" e da comoção, da piedade.

Com o avanço do para-desporto, vimos nessas abordagens um salto, do coitadinho ao herói.

E, com o surgimento de comediantes com deficiência, vimos surgir também uma abordagem mais leve, pois agora podia-se até fazer piada da própria condição.

Vemos ainda um tipo de abordagem da comoção, só que uma comoção não pela piedade, mas pela superação.

Enfim, até que se encontre um equilíbrio de tudo isso, e se é que possa existir um equilíbrio, já que cada meio de comunicação tem seu perfil e sua política, leva tempo.

Muitas vezes também vemos que o problema nem é o estilo daquele programa ou daquele jornal, mas sim a falta de informação geral, que impede, por exemplo, uma apresentadora de saber como cumprimentar um cego, ou que faz um jornalista falar "linguagem de libras".

Na hora de apresentar um artista com deficiência, ou de incluir um artista com deficiência no cenário ou no elenco, as dificuldades são as mesmas: não saber como lidar ou como falar, tender para as abordagens comoventes ou enfatizar a deficiência e não o trabalho artístico, ter que atender aos interesses daquele meio de comunicação etc.

Já tive diferentes tipos de experiência com a mídia, e as piores, para mim, são as que citam no texto de apresentação: "cantora deficiente visual".

Quando a matéria é sobre meu trabalho e não sobre inclusão ou deficiência, é apelativo e desnecessário.

Ninguém apresenta o Herbert Vianna por exemplo como o cantor paraplégico, ou o Roberto Carlos como o rei amputado.

Por outro lado, dentre as experiências positivas que tive, vale citar a abordagem do apresentador Raul Gil, que foi de extrema sensibilidade e naturalidade, perto e longe das câmeras.

E, mais uma vez, acredito que comportamentos positivos como o dele e de sua produção são resultado também de uma mudança de postura nossa, dos artistas com deficiência.

Desde que participei do quadro Percepções, no programa Fantástico da Rede Globo em 2005/2006, em que ficamos 4 meses no ar, aprendi muito sobre essa relação mídia e pessoa com deficiência.

Nós da equipe do projeto gerávamos o material bruto em vídeo, e a equipe do programa era que editava, punha trilha sonora etc.

Observei nos primeiros capítulos da série que, quando eu aparecia falando reflexiva, séria e mais introspectiva, independentemente do conteúdo da minha fala, eles punham uma música comovente.

Então passei a sorrir sempre, e a não dar brecha para as musiquinhas tristes, que realmente não apareceram mais.

Mudei minha postura não só ali, mas em qualquer posterior aparição na televisão, e o resultado costuma ser abordagens mais positivas, como reação à minha forma de me apresentar.

Hoje temos também outra coisa a nosso favor.

Nós, artistas independentes que precisamos de visibilidade, não temos mais só a mídia para divulgar nosso trabalho, mas temos também a internet, onde passamos a ter mais voz, onde temos liberdade para expressar o que quisermos e para publicar nossa arte sem interferência ou censura.

A internet, quando bem utilizada, é uma grande ferramenta para o artista da atualidade.

Capacitação, mercado e gestão.

Sim, capacitar-se de forma efetiva na arte, inserir seu trabalho no mercado e gerir a própria carreira, no caso de artistas independentes como eu, já não é tarefa fácil no Brasil.

E as barreiras aumentam ainda mais quando somos artistas com alguma deficiência.

Na capacitação, por tudo o que já colocamos acima, sobre o despreparo dos professores e escolas de arte.

Mas, como pudemos observar, é algo que já tem melhorado, e isso pude comprovar ao longo da minha trajetória de quase 30 anos desde a primeira aulinha de música.

E nós, artistas e estudantes de artes com deficiência, temos fundamental papel neste avanço, já que passamos a ser mais conscientes de nossos direitos e nos tornamos mais ativos e menos passivos na promoção de nossa própria inclusão.

E destaco que capacitar-se na arte e nunca parar de se aprimorar são condições fundamentais pra uma carreira sólida e duradoura.

Já na nossa inserção no mercado artístico, as barreiras são sim também por falta de informação e acessibilidade, mas são, principalmente, fruto de preconceito e discriminação, que ainda fazem parte de uma cultura excludente e apegada a padrões de "perfeição".

E, em determinadas modalidades, como o teatro, nossa atuação fica sim mais restrita, por uma questão de perfil.

No teatro convencional, dificilmente um ator totalmente cego fará o papel de um personagem vidente, e personagens cegos são bastante raros.

Mesmo assim, ainda vemos personagens cegos sendo interpretados por atores videntes, o que não considero injusto quando esses personagens perdem a visão durante a trama, mas tentamos conscientizar os autores e diretores para que prefiram atores cegos quando possível.

Então, fatalmente atores cegos, se não protagonizarem seus próprios textos e produções, terão menos oportunidade de trabalho, já que nosso perfil é realmente muito específico.

Iniciativas como o Teatro Cego vieram justamente preencher esta lacuna e gerar mais trabalho para atores cegos, já que no escuro todos estão cegos e não faz diferença como cada ator é, como ele se locomove etc.

Além da experiência dar à plateia a oportunidade de vivenciar algo novo, diferente e estimulante para seus outros sentidos e imaginação.

Novamente, de um modo geral, as soluções para as barreiras encontradas em nossa inserção no mercado artístico terão que, cada vez mais, vir de nós mesmos, num trabalho contínuo de informação, conscientização, quebra de tabus e velhos conceitos.

Quanto à gestão de nossa carreira independente, a maior barreira que vejo é a falta de acessibilidade.

É muito comum, por exemplo, artistas independentes, e especialmente cantores e músicos, utilizarem maciçamente a internet para divulgarem seu trabalho.

Porém, usuários de leitores de tela como nós, ainda encontramos muita inacessibilidade em sites muito utilizados neste trabalho de divulgação.

Além disso, sites e editais culturais do próprio governo são inacessíveis e seus gestores se demonstram completamente insensíveis às nossas necessidades e direitos.

Não é uma questão de falta de informação por parte deles, mas de falta de vontade e de interesse em cumprir uma lei não fiscalizada.

Eu sempre recomendo que artistas independentes se organizem, registrem-se, divulguem seu trabalho, batalhem por seu próprio site para exibir seu portfólio de trabalho online para todo o mundo, sejam microempreendedores individuais e emitam nota fiscal, mas ciente de que todas essas questões implicam em papelada, burocracias e inacessibilidades capazes de nos fazer até pensar em desistir.

E aí está outra batalha que, insisto, é nossa: cobrar nossos direitos e tornar o mundo mais acessível e justo.

Apenas um comentário sobre o tema divulgação: o mercado artístico vive muito de imagem, pois é a forma mais rápida de comunicação pra quem enxerga, e vivemos na era do imediatismo.

E mesmo quando não estamos falando da grande mídia.

O ser humano é visual e, se qualquer artista, cego ou não, quer atingir o público e quer se comunicar com este público, ele precisa da ferramenta imagem.

É muito fácil observarmos a força da imagem por exemplo em qualquer rede social, onde uma foto ou pequeno vídeo dá muito mais audiência que uma frase sozinha, por mais forte ou bonito que seja o conteúdo desta frase.

Para nós, artistas cegos que gerenciamos nossa carreira, este tema torna-se complexo e fatalmente precisaremos confiar em outros olhos que cuidem da nossa imagem e de nosso material visual.

O poder da arte: O que fazemos com este instrumento em nossas mãos Acredito na arte como um poderoso instrumento, seja de entretenimento, de provocação, de transformação, de pacificação, de elevação, de conscientização.

E, é claro, um instrumento de sobrevivência, pra quem vive da arte como eu.

E este infinito instrumento, bem administrado, funciona muito a nosso favor, promovendo a inclusão, a união e a acessibilidade, tanto pra quem faz quanto pra quem assiste a esta arte.

Dentre tantos temas, componho canções que falam sobre questões da deficiência, colocando de modo fácil, simpático e artístico nossas dificuldades, dicas de convivência, novos conceitos mais positivos, desafios e desabafos para o público em geral.

E o resultado disso é surpreendente.

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as pessoas, sem ou com deficiência, emocionam-se, animam-se, empolgam-se e relatam que aprenderam novas coisas, ou que reviram ideias antigas, ou que descobriram nova motivação.

Quando uma pessoa que acabou de adquirir sua deficiência e está inconformada e revoltada me relata que, após ouvir minha música "Pra quê", viu novo horizonte e decidiu recomeçar de forma mais positiva e com alegria, ou como certa vez ouvi de um rapaz, que naquele dia pensava em suicídio após descobrir uma fibromialgia, após ouvir minha mesma música cantada ao vivo por mim: "Obrigado, sua música salvou minha vida", pra mim é a prova do infinito poder da arte.